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Era uma vez em Hollywood no sertão do Cariri

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Há alguns dias, os canais Sony e AXN exibem uma programação de filmes representativos dos anos sessenta, período em que se passa a trama do novo filme de Quentin Tarantino, “Era uma vez em Hollywood”. O próprio Tarantino faz a apresentação das obras, escolhidas por ele, num bate-papo com a crítica de cinema Kim Morgan. Imperdível. A coincidência de essa programação especial ocorrer durante essa semana e concluir exatamente hoje, Dia dos Pais, me traz boas recordações do meu pai, sua paixão pelo cinema hollywoodiano e o quanto essa paixão me influenciou. Durante a sua infância, o senhor Luís Vieira Souza, meu pai, acostumou-se a descer o distrito de Santa Fé em cima de um burro, acompanhante assíduo do seu Manoel, meu avô e pai de papai, rumo ao grande encontro social que era a feira do Crato (e que talvez ainda o seja, pois saibam que as feiras do Nordeste não perderam o seu encanto). Para vovô, esse era o momento daquela prosa bem destilada nas conversas dos amigos, e e...

A grande farsa contra Lula

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Na farsa contra Lafargue (foto), uma das testemunhas leu o depoimento num pedaço de papel escondido no chapéu. Leiam Artur Azevedo. O grande teatrólogo, crítico da escravidão, é também autor de alguns dos contos mais engraçados da nossa literatura. E atuais (embora parte da sua atualidade se deva ao fato de que, nesses tempos de golpe de estado, é o Brasil que tem retrocedido). Para escrever essa crônica reli o seu conto "Pobres liberais!". Um resumo do conto: O dr. Francelino Lopes, político do partido conservador e presidente de província, cargo que equivale hoje a governador, sai em visita ao interior do seu estado. Na primeira cidade visitada, foi recebido com as pompas usuais e com um "opíparo banquete". Antes de ir dormir, recebeu uma edição do jornal local "A opinião pública", em que havia sido publicada a sua biografia. Já no caminho do sono, o opíparo banquete começa a fazer efeito, levando-o à "necessidade imperiosa de praticar cer...

Fake news, pós-verdades, velhas mentiras

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Marx: o homem mais caluniado de todos os tempos Tio Zé era um notório mentiroso. Uma das suas mais célebres mentiras detalhava uma bem sucedida pescaria que se transformara numa caçada ainda mais bem sucedida, embora absolutamente casual: terminada a pesca, quando Tio Zé foi enxugar as mãos numas folhas próximas viu, estupefato, que estava segurando as orelhas de um tatu. Benzadeus. Arrumados os peixes e o tatu no caçuá, Tio Zé ergueu as mãos para os céus em agradecimento, no exato momento em que passava um bando de pássaros... Pois não é que ele ainda teve a sorte de agarrar oito nambus? Tio Zé era irmão da minha avó materna. Vivendo numa família grande, num Nordeste seco e pobre, as fabulações de Tio Zé tinham a função de minimizar o sofrimento, tanto dele como dos agraciados pela sua prosa. Claro que todos sabiam que tudo aquilo era mentira. Mentira, não: fabulações. Por isso, para mim, Tio Zé era uma pessoa fabulosa. Não tive a sorte de conhecê-lo, mas vejo-o: desenredando ...

Marx vive

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Mais atual do que nunca: em maio celebramos os 200 anos do nascimento de Marx. Este ano, em dezembro, celebramos os vinte anos do Nobel de literatura de José Saramago: a primeira vez que um autor, escrevendo em língua portuguesa, conquistou o celebrado prêmio (que, antes dele, já poderia ter sido atribuído a Machado de Assis, Fernando Pessoa, Florbela Espanca, Oswald de Andrade, Guimarães Rosa, João Cabral de Melo Neto, Clarice Lispector...). Destaco um trecho do belíssimo discurso que Saramago fez naquele ocasião, pelo recebimento do prêmio: "Chega-se a Marte, mas não ao nosso próprio semelhante". A frase me traz recuerdos de minha adolescência, em Juazeiro do Norte, de quando, certa vez, conversava com um carroceiro, e - não atino por quais descaminhos - a nossa prosa enveredou para a afirmação, da minha parte, de que o homem tinha chegado à Lua no ano do meu nascimento. O rapaz - pois era um jovem carroceiro - riu um riso de peleja aberta e duvidou da minha ...