Marx vive


Mais atual do que nunca: em maio celebramos os 200 anos do nascimento de Marx.


Este ano, em dezembro, celebramos os vinte anos do Nobel de literatura de José Saramago: a primeira vez que um autor, escrevendo em língua portuguesa, conquistou o celebrado prêmio (que, antes dele, já poderia ter sido atribuído a Machado de Assis, Fernando Pessoa, Florbela Espanca, Oswald de Andrade, Guimarães Rosa, João Cabral de Melo Neto, Clarice Lispector...).
Destaco um trecho do belíssimo discurso que Saramago fez naquele ocasião, pelo recebimento do prêmio: "Chega-se a Marte, mas não ao nosso próprio semelhante".
A frase me traz recuerdos de minha adolescência, em Juazeiro do Norte, de quando, certa vez, conversava com um carroceiro, e - não atino por quais descaminhos - a nossa prosa enveredou para a afirmação, da minha parte, de que o homem tinha chegado à Lua no ano do meu nascimento. O rapaz - pois era um jovem carroceiro - riu um riso de peleja aberta e duvidou da minha "história de trancoso", pois, estava claro para ele: o homem não chegara, bem como jamais chegaria à Lua.
Do alto da minha arrogância juvenil, combati com entusiasmo a ignorância do rapaz, tentando, com didatismo, fazê-lo imaginar-se tripulante das missões Apolo. Em vão: irredutível, enquanto alimentava o burro, seu ganha-pão, o carroceiro zombava dos burros estudados que acreditam facilmente no que leem.
Abismava-me o desconhecimento daquele rapaz. O que meus verdes anos não me permitiam ver é que o estranhamento daquele camponês tinha sua lógica: para ele, não entrava em sua cabeça os homens viajarem pelos céus infinitos, pousar na Lua, visitar planetas quando, aqui na Terra, tinha gente morrendo de fome ou diarreia.
Eis o que eu deveria ter lhe falado naqueles dias: "Entendo o seu ceticismo, companheiro; tem a sua lógica. Ilógico é o capitalismo, cujo império planetário continua produzindo miséria, dor e violência para a maioria dos seres humanos".
De fato, como justificar ou aceitar que apenas 1% da população do planeta detenha riqueza equivalente ao que possuem 99% da população?
Como defender como viável um sistema econômico que, no Brasil, faz com que apenas 6 bilionários possuam a mesma riqueza que os 100 milhões mais pobres?
É por essas e várias outras razões que, duzentos anos depois do seu nascimento, Karl Marx continua atual.
Precisamos ler O capital, essa obra-prima que nos explica por que uma minoria anseia por mandar e desmandar, recorrendo a golpes de estado, filigranas jurídicas, leis, contando com os serviços dos grandes jornais e emissoras de TV, com o intuito de convencer a maioria de que tudo que fazem é pelo bem de todos, quando, de fato, agem no único objetivo de aumentar a exploração dos trabalhadores e, consequentemente, o lucro dos capitalistas.
Assim, entendemos o porquê de, no Brasil, uma presidenta ter sido afastada com base numa expressão pouco conhecida denominada "pedaladas fiscais", dando origem a um governo que tem como uma das suas principais medidas a implantação de uma "reforma trabalhista", voltada basicamente a (adivinha?) aumentar a exploração dos trabalhadores e, consequentemente, o lucro dos capitalistas.
Perdoem-me soar repetitivo; é que as coisas óbvias parecem ter perdido sua obviedade.
Como óbvio soa, para mim, que precisamos ler Marx e saudar a atualidade do seu pensamento: Marx vive.


http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2016/01/160118_riqueza_estudo_oxfam_fn
BBC, 18/01/2016.

https://www.cartacapital.com.br/economia/seis-brasileiros-tem-a-mesma-riqueza-que-os-100-milhoes-mais-pobres
Carta Capital, 25/09/2017. 


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