A grande farsa contra Lula

Na farsa contra Lafargue (foto), uma das testemunhas leu o depoimento num pedaço de papel escondido no chapéu.

Leiam Artur Azevedo. O grande teatrólogo, crítico da escravidão, é também autor de alguns dos contos mais engraçados da nossa literatura. E atuais (embora parte da sua atualidade se deva ao fato de que, nesses tempos de golpe de estado, é o Brasil que tem retrocedido).
Para escrever essa crônica reli o seu conto "Pobres liberais!". Um resumo do conto:
O dr. Francelino Lopes, político do partido conservador e presidente de província, cargo que equivale hoje a governador, sai em visita ao interior do seu estado.
Na primeira cidade visitada, foi recebido com as pompas usuais e com um "opíparo banquete". Antes de ir dormir, recebeu uma edição do jornal local "A opinião pública", em que havia sido publicada a sua biografia.
Já no caminho do sono, o opíparo banquete começa a fazer efeito, levando-o à "necessidade imperiosa de praticar certo ato fisiológico de que nenhum indivíduo se pode eximir" e começou a "procurar o receptáculo sem o qual não poderia obedecer à natureza", objeto comum a ricos e pobres no século XIX: um penico.
Nada de encontrar o precioso objeto. Nunca o valor de troca de uma mercadoria esteve tão visível na invisível visibilidade do seu valor de uso...  "Meu reino (minhas fazendas) por um penico", diria o político conservador.
De repente, "olhou para A Opinião Pública e [...] não refletiu nem mais um segundo: o jornal do bacharel Pinheiro, desdobrado sobre o soalho, substituiu o receptáculo ausente". Terminado o serviço, "agarrou cuidadosamente A Opinião Pública pelas quatro pontas" e atirou tudo pela janela, "com muita pena de não poder ler a sua biografia".
Na manhã seguinte, é acordado por grande alvoroço na praça. Vai à janela e, sob ela, está o bacharel Pinheiro, dono do jornal, que se diz surpreso "pelo espetáculo de uma injúria ignóbil, cometida contra a pessoa de V. Exa. e contra a imprensa livre!"
"Deixemos a injúria no lugar em que foi encontrada, isto é, debaixo da janela de V. Exa., a fim de que V. Exa. veja a que desatinos pode levar nesta cidade o ódio político e do que são capazes os liberais! [...] Sim, foram os liberais! Só essa gente imunda poderia encher de imundícias a respeitável efígie e a biografia de V. Exa.! "

A releitura deste conto vem a propósito dos atuais acontecimentos políticos no Brasil. Similar ao que acontecia no final do século XIX, época retratada no conto, os conservadores de hoje continuam no controle da grande mídia, legislativo, judiciário e governo federal. Só que hoje os conservadores culpam não os “pobres liberais” pelos problemas do país; culpam o Partido dos Trabalhadores. Em bom português da plebe: agora, para os ricos, o PT só faz merda!
O tribunal da santa inquisição, popularizado pela mídia com o nome de “lava-jato” já não esconde a farsa revelada pela obsessão em perseguir, prender o ex-presidente Lula e impedi-lo de se candidatar nas eleições de outubro, ausência de parcialidade, explícita, entre outros fatos, na rapidez na tramitação do recurso de Lula, que será julgado depois de amanhã, em Porto Alegre.
Por mais que os golpistas tenham idealizado, não deu para elaborar uma narrativa limpinha e cheirosa. Então, vai essa farsa mesmo, com os atores apresentando-se como os grandes canastrões que são: senador flagrado em gravação descrevendo todas as etapas do golpe (“com o supremo, com tudo”); vídeo com assessor do golpista-presidente Michel Temer carregando uma pasta cheia de dinheiro proveniente de propina (mas: o presidente continua no cargo, Robin Hood ao contrário, que tira dos pobres e dá aos ricos); Sérgio Moro, juiz-carrasco de Lula posando em foto ao lado de Aécio Neves, envolvido em corrupção e flagrado em gravação na qual fala na possibilidade de matar alguém, antes que faça delação (ops, ia esquecendo: Aécio é do PSDB, partido do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o FHC, lendário por nunca ter feito nenhuma cagada...); o presidente do tribunal federal da 4a. região (trf-4) que irá julgar Lula depois de amanhã, o juiz Thompson, que 1) mesmo não tendo lido o processo elaborado por Sérgio Moro, declarou-o perfeito, 2) expressou à imprensa sua opinião, num caso que ainda ia à análise, contrariando o código de ética da magistratura, que estabelece que o juiz “deve abster-se de emitir opinião sobre processo pendente de julgamento”. O juiz Thompson quer deixar seu chamegão no monólogo final da farsa, dia 24, em Porto Alegre.
Um regime político cuja essência é garantir os privilégios dos ricos jamais terá uma justiça justa, quando se está em jogo o desmascaramento de sua essência. Em 1891, em Fourmies, na França, 1500 operários duma tecelagem faziam um protesto pacífico quando soldados dispararam contra os manifestantes, deixando 60 feridos e 10 mortos, entre os quais quatro crianças e adolescentes. Paul Lafargue, genro de Marx, foi indiciado por incitação a homicídio e condenado a um ano de prisão. O julgamento de Lafargue foi uma farsa: quatro testemunhas da promotoria eram membros da tecelagem de Fourmies e repetiram quase as mesmas  palavras, sendo que um deles leu o testemunho num papel escondido no chapéu. É que às vezes a justiça não consegue ocultar sua parcialidade, como no caso da condenação de Lafargue e no jogo de cartas marcadas que é o processo contra Lula.
Apesar da publicidade da grande imprensa nativa, o processo contra Lula chama a atenção em função dos erros e abusos cometidos (cuja análise estão além duma crônica), como a quebra do sigilo telefônico de Lula e familiares (pelo ato ilegal, Moro pediu meras desculpas ao Supremo); condução coercitiva de Lula, embora em nenhum momento o ex-presidente tenha se recusado a prestar esclarecimentos; a conduta do juiz Thompson (já comentada) e a da sua chefe de gabinete, que fez petição online no facebook pedindo apoio à prisão de Lula.
Numa democracia em frangalhos, condenar Lula e impedi-lo de ser candidato representa, talvez, o fato mais grave na cadeia de retrocessos que as elites dirigentes impõem ao país, que acentua nos oprimidos a percepção de maior vulnerabilidade diante do poder dos magnatas. Ao mesmo tempo, desperta, mais do que nunca, o sentimento de que a classe trabalhadora precisa fortalecer a sua união e organização, na defesa da democracia e contra todos os retrocessos. Se não, daqui a pouco, é bem capaz que os textos de Artur Azevedo, censurados no século XIX por suas críticas à escravidão, voltem a ser proibidos, em pleno século XXI.   

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